Poucos projetos para prédios tombados em Ribeirão Preto

Região que viu o município começar tem imóveis com a arquitetura diferenciada dos tempos de riqueza do café

    • Jornal A Cidade
    • Marcelo Fontes
Weber Sian / A Cidade
Arquitetura do Palácio Rio Branco tem inspiração francesa (foto: Weber Sian / A Cidade)

O Centro de Ribeirão Preto foi onde a cidade começou. Com a pujança do café no início do século XX, muitos imóveis com arquitetura diferenciada foram erguidos no quadrilátero entre as avenidas Jerônimo Gonçalves, Francisco Junqueira, Nove de Julho e Independência.

De acordo com relatório do Conppac (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural), são pelo menos 30 imóveis tombados. Duas avenidas (Jerônimo Gonçalves e Nove de Julho) também tiveram seus conjuntos arquitetônicos tombados.

O problema é que imóveis como Palacete Jorge Lobato, nas esquinas das ruas Álvares Cabral e Florêncio de Abreu, e o Palacete Albino de Camargo Neto, na rua Visconde de Inhaúma, foram tombados, mas não têm nenhum projeto de restauração e preservação.

“Após o tombamento, o imóvel perde o valor. Quando ele é particular, o proprietário perde o interesse e o bem acaba abandonado”, explica Cláudio Henrique Bauso, ex-presidente e atual membro do Conppac (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Artístico Cultural).

Bauso afirma que Ribeirão Preto tem cerca de 50 imóveis tombados, mas que apenas três proprietários solicitaram isenção de IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano).

“As poucas leis de incentivo, como a que isenta o proprietário do IPTU, são pouco divulgadas, complicando ainda mais a situação”, lembrou o especialista.

Agenda Ribeirão
O patrimônio histórico, além de vários outros temas ligados ao Centro de Ribeirão Preto, estarão em debate no primeiro dia do seminário Agenda Ribeirão, na quarta-feira, dia 21 de maio, com o tema Morar. O debate terá como palestrante Philip Yang, fundador do Instituto Urbem (Instituto de Urbanismo e de Estudos para a Metrópole), que elaborou o projeto de revitalização do Centro de São Paulo.

A mesa de discussão também conta com nomes de peso: Regina Monteiro, arquiteta e urbanista que ajudou a elaborar a Lei Cidade Limpa, José Carlos Carvalho, vice-presidente da Acirp (Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto), José Antonio Lanchoti, arquiteto e urbanista da Secretaria de Planejamento, e o promotor Antonio Alberto Machado.

Palacete está em ruínas

O Palácio Albino de Camargo, na rua Visconde Inhaúma, já passou por sete incêndios desde que foi tombado, há quase 10 anos. “O Casarão vive cheio de usuários de drogas”, reclama Maria do Carmo Silva, de 65 anos, que mora a um quarteirão do palacete.

“Nós temos indícios de que os incêndios foram criminosos. Os proprietários chegaram a contratar uma demolidora para colocar o palacete no chão. Hoje resta muito pouca coisa em pé”, lamenta Cláudio Henrique Bauso, ex-presidente e atual membro do Conppac.

A reportagem tentou entrar em contato com o proprietário do palacete, mas não conseguiu localizá-lo.

O Hotel Brasil, localizado na avenida Jerônimo Gonçalves, é outro imóvel tombado em situação delicada. Há um ano a obra que o proprietário estava fazendo foi embargada. “Ele não estava restaurando. O vitral das janelas foi completamente retirado, por isso pedimos para embargar a obra”, explica Bauso.

A reportagem entrou em contato com a assessoria do proprietário do imóvel, mas não recebeu resposta até o fechamento da edição.

Prédio histórico em uso

Se os imóveis particulares estão abandonados, os que pertencem ao poder público municipal estão em uso. A Prefeitura de Ribeirão Preto, por exemplo, está situada no Palácio Rio Branco, inaugurado em 1917. Ele foi construído sob encomenda do então prefeito Joaquim Macedo Bitencourt. O projeto, do engenheiro Antônio Soares Romeu, usou regras estilísticas da belle-époque.

Ao lado do Palácio, também na rua Cerqueira César, está o prédio do protocolo da prefeitura. O local foi a primeira sede, no século XIX, da Câmara Municipal de Ribeirão Preto

Teatro foi demolido

O Teatro Carlos Gomes, inaugurado, em 1897, com a apresentação da ópera “O Guarani”, de Carlos Gomes, também poderia estar na lista de imóveis tombados. Ocorre que em 1946, em uma decisão que até hoje causa controvérsia, o teatro foi demolido.

Atualmente, o local – situado entre as ruas Visconde de Inhaúma, Barão do Amazonas, General Osório e Duque de Caxias, no Centro da cidade –, que chegou a ser um terminal de ônibus há duas décadas, é uma praça (Carlos Gomes).

Só um palacete tem projeto em andamento

Em nota, a assessoria da Secretaria Municipal da Cultura informou que “a maioria dos imóveis tombados continua sendo um bem particular, o que torna a manutenção burocrática por conta da negociação que envolve o proprietário, que nem sempre está de acordo com restauro e preservação”.

A Secretaria da Cultura ainda explicou que negocia com os proprietários do Palacete Camilo de Mattos (casa do ex-prefeito Camilo de Mattos) a restauração, para que o imóvel tenha fins culturais – desde 2011 existe projeto de tornar o local a sede da Fundação Feira do Livro.

“Os outros locais aguardam negociação, tendo a Secretaria da Cultura como intermediadora. Os bens possuem valor cultural inestimável para a cidade e temos trabalhado para tornar possível o restauro e utilização dos bens tombados”, informou a pasta da Cultura, via e-mail.

 


0 Comentário(s)

Seja o primeiro a comentar.